Ângela Zamora Cilento: Possui gradua- ção em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1988) , mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1995), aperfeicoamento em Mitologia Grega e Latina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1982) e aperfeicoamento em Semiótica do Tempo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994). Atualmente é Professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência na área de Filosofia. Atuando principalmente nos seguintes temas: genealogia da moral, pulsões, moral em Nietzsche.





Voltar →



Índice dos poemas






HAI-KAI

Universo de grãos de areia


                                            Ângela Zamora Cilento.

ALGUNS PROBLEMAS DE EXTENSÃO


Questão de extensão:
Tu és meu cosmos
Mas queres ser grão.


________









PRODUTO INFLAMÁVEL

                                            Cada vez mais, A.G.

E o que eu sou agora?
Produto inflamável.
Isqueiro aceso
Em papel-jornal
Consumo-me a mim mesma.
Trópico selvagem
Na mesmice rotineira
‘Tropos’ sem lugar
Até você me chamar
Aos laboratórios da química
E lições de anatomia.
Ardo, queimo, incendeio
Coração em chamas
Sorrisos irreversíveis
Momentos de nuances indescritíveis
Em fórmulas mágicas e alquímicas
Que nenhuma razão pode decifrar
Flâmula de mistério profundo
Produto inflamável:
Elementos heterogêneos
Carregados de dor e
Desejo.
Combustão -
Combustível para além
Do imediato.
Você me transpõe a todo o momento
E me faço em pedaços.
E das cinzas, fênix branca,
Renasço.



BARBÁRIE INTERIOR

MEDUSA, MEDÉIA
METAFÓRAS INSUFICIENTES
PARA EXPRESSÕES FRUSTRADAS
DO DESEJO
TANTO MÁRTIRIO PRA NADA
TANTA NEGAÇÃO PARA O QUE SE SENTE
MEDUSA: AQUELA QUE ULTRAPASSOU O MÉTRON
DAQUILO QUE NÃO DEVIA SENTIR, MAS SENTE!!

E AGORA, COITADA, PRESTES A TER A CABEÇA CORTADA,
ESTRANGULADA PELOS SOCIAIS LAÇOS QUE A PRENDEM.
TRANSFIGURADA POR TRANSTORNOS
INCONTROLÁVEIS E INCOMPREENSÍVEIS
EM TENTATIVAS INGLÓRIAS DE ANIQUILAR
REBENTOS QUE INSISTEM

O DESEJO É COMO A HIDRA DE LERNA
QUE RENASCE A TODO INSTANTE,
CADA VEZ QUE HÁ PENSAMENTO TUDO
CRESCE E BROTA NOVAMENTE.
E NÃO HÁ FÔLEGO, NEM HERÓI
QUE O COMBATA DEFINITIVAMENTE.
QUE BARBÁRIE INTERIOR!!

QUE LUTA INSANA
QUE DESGASTE DE ENERGIA,
QUANDO SE SABE QUE NÃO HÁ ESPADA
NEM CRUZ QUE A ACALENTE.

QUANTO DESEJO SUFOCADO
QUANTOS SONHOS Á NOITE
SENTINDO PELE A PELE, O AMADO
E OS SUSPIROS PELO QUE VEM...
BEIJOS DE APAIXONADO
CENAS DE CINEMA
LENÇOIS DESMANCHADOS
CABELOS DESALINHADOS,
NA FRANJA ENTRE O SONHO E A REALIDADE.

E ENTÃO, CHEGA MEDÉIA
EM SUA VERSÃO MODERNA E BATE
À SUA PORTA
PARA ASSASSINAR
O BEIJO MAIS COMPRIDO
O ABRAÇO MAIS ÍNTIMO
O TOQUE MAIS ACALORADO
TÃO BARBÁRA QUANTO PODE SER UMA MULHER.
LUTA TRAVADA CONTRA SI MESMA
PARA ROUBAR-SE DO QUE É MAIS CARO
ESFACELAR-SE,
MUTILAR-SE, DESFAZENDO-SE EM PEDAÇOS.
MEDUSA HORRORIZADA
PELA SUA FACE
CONTEMPLADA NO SEU PRÓPRIO ESPELHO
DESCOBRE-SE MONSTRO
QUANDO NA VERDADE É
APENAS UM HUMANO
QUE SE ALIMENTA DE SONHOS
QUE ACORDA EM PLENO VAZIO
DA REALIDADE
PROCURANDO UM NOVO SENTIDO
QUE A PREENCHA
DILUINDO ELEFANTES INVISIVEIS
PARA QUE POSSA LEVANTAR.







Revista Pandora Brasil - Edição Nº 48 - Novembro de 2012 - "Poetas Poesia III"
Voltar →