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Revista Pandora Brasil

Fundada em 2007

ISSN 2175-3318

A Revista Pandora Brasil é uma revista para divulgar criações literárias e textos acadêmicos de professores e alunos.
Um abraço e boa leitura.

Jorge Luis Gutiérrez
Editor Revista Pandora Brasil





  • Jorge Luis Gutiérrez
    Página Literária
    Poesías y Cuentos

  • Fundada em 2007 - ISSN 2175-3318
    Revista de humanidades e de criatividade filosófica e literária

    "A pandemia como experiência filosófica, teológica e existencial"

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    O ADEUS DA CORUJA

    Jorge Luis Gutiérrez (1)


          Era março de 2020. Enquanto o mundo todo estava preocupado com o SARS-CoV-2, no Brasil, na cidade de Limeira, um aluno meu lutava contra o câncer. Sem muita esperança de vitória, mas com a firme determinação de lutar até o fim. Luta que já durava vários anos e que agora se aproximava da batalha final. Ele era o Paulo Silas, seminarista diocesano e meu aluno da disciplina de Língua Grega.

          Era março de 2020. A grande preocupação mundial era com o coronavírus, o SARS-CoV-2. Alguns países praticamente pararam. Os governos tomavam medidas extremas. As aulas presencias se transformaram em aulas remotas. Os índices de mortos, embora ainda pequenos, no paravam de crescer. Algumas personas com maiores recursos econômicos, consideravam que era uma oportunidade para acalmar o frenético ritmo da vida. Uma oportunidade para crescer, meditar se reencontrar. Os que dependiam do salário diário começavam a ficar desesperados. As atividades acadêmicas mudavam radicalmente. Mas a vida continuava e a luta contra o câncer também.

          Por causa da pandemia, na universidade as atividades “cara a cara” deixavam lugar às atividades virtuais. O quarto de biblioteca de meu apartamento se transformou em “estudo de transmissão”. Até tive que mudar de lugar o clássico pôster 110x80 com as capas de seis álbuns de Pink Floyd pintadas nas costas de seis modelos nuas sentadas a beira de uma piscina: no ficava adequado esse poster como fundo das minhas aulas.

          A vida continuava. E dois dias após as aulas terem parado por causa da pandemia, recebi a notícia de que Paulo tinha falecido. E embora sabíamos que devia acontecer, a notícia veio acompanhada de tristeza. Nenhum professor está preparado para a morte de um aluno. E por causa do distanciamento social que a pandemia infligia, não foi possível ir ao funeral.

          Conheci Paulo há um pouco mais de um ano. No começo de março de 2019. Data em que comecei a trabalhar na PUC de Campinas. Nesse semestre eu era seu professor de Lógica I.

          Lembro muito bem dele. Após a primeira aula ele se aproximou e disse que queria falar comigo. Reconheci de imediato, por seu olhar, que estava doente: mistura de fé e resignação. Ele me disse que estava com câncer. E que faltaria a algumas aulas porque tinha que fazer quimioterapia. Me pediu para ter um pouco de paciência com ele. Tentei ser o mais cordial e compreensivo possível. Disse para ele que podia contar comigo e que não devia se preocupar pelas faltas. Aliás algum tempo depois a própria direção da faculdade nos instruiu para ter um trato compreensivo com ele. Após essa conversa o Paulo sempre após a aula ia até a minha mesa e ficava alguns minutos conversando comigo. No segundo semestre, quando ele caminhava com muita dificuldade, era eu que ia até sua cadeira.

          Mas eu era seu professor de lógica, e eu não sabia como o “princípio de identidade”, ou “o princípio de não contradição” ou “o principio de terceiro excluído” poderiam ajudar ele. Nem sequer se a teoria aristotélica dos futuros contingentes, contida no livro Organon, poderia servir de algo. Porém, o Paulo era um homem de fé, e aos poucos foi sobre esse tema que nossas conversas foram girando, e foi na fé que ele encontrou esperança, consolo e dignidade.

          Tempo depois ele me contou que seu bispo tinha enviado uma carta ao vaticano solicitando sua ordenação. Ele queria ser sacerdote, mas a vida lhe negava o tempo necessário para concluir os estudos. Não sei se essa carta teve resposta, só sei que ele foi não ordenado. E no segundo semestre, como ele era jornalista, lhe pedi que coordenasse uma edição da Revista Pandora Brasil. Tarefa que, apesar das dificuldades, ele aceitou de imediato e conclui com sucesso. Era o número 103, de outubro de 2020, que tinha por título "Lógica, Ciência e Existência Humana" (2) .

          A primeira vez que o vi o Paulo me pareceu uma coruja. Aliás, um filhote de coruja: óculos grandes que não conseguiam esconder seu olhar inteligente e um tanto triste. O corpo um tanto “gorduchinho” pelos medicamentes e terapias; um tanto desajeitado ao caminhar (algumas semanas depois começaria a usar bengala), com o cabelo um tanto desarrumado (penas descabeladas). Sim parecia um filhote de coruja. Nada de mais, considerando que há muitos ninhos de coruja buraqueiras nas redondezas da Universidade.

          Paulo parecia uma coruja, mas também seu olhar se parecia com o de meu irmão. Era o olhar das pessoas que lutam contra o câncer. Como eu perdi meu irmão há dois anos por causa do câncer, sabia bem o que significava essa a luta e também sabia qual seria o fim.

          Era um filhote de coruja com suas assas doentes: o voo alto lhe seria negado para sempre. Foi nesse ponto que eu o conheci. Ele era o pássaro que teria que aprender a posar com dignidade, sabendo que nunca mais voltaria a voar.

          Mas não sempre foi assim. No passado o Paulo tinha voado alto. Um condor. Ele era jornalista e tinha trabalhado na Rádio do Vaticano em Roma, além de outros trabalhos. Sim, ele tinha voado além das nuvens, e além das altas montanhas: com charme, beleza e sucesso. Mas em algum ponto do voo suas assas adoeceram e seus pulmões falharam e ele começo a cair. Mas foi aí que aconteceu a o milagre da “metamorfose”. O milagre do renascer. E quando eu o conheci era um filhote de coruja.

          Na semana anterior ao início da quarentena visitei a Paulo junto o Silas, também aluno de filosofia, na casa de sua família na cidade de Limeira. Este semestre ele era meu aluno de Grego Clássico. Ele estava muito mal. Seu aspecto tinha se deteriorado. “Oi professor” ele me disse. “Oi me aluno predileto” eu respondi. Tentei uma brincadeira, para ver se meu coração se descontraia: “Vim a trazer a prova de grego para você fazer agora na minha presencia, você está pronto?”, ele sorriu. Não soube mais o que dizer. Pensei que quiçá era o momento de bancar o professor rígido e falar ameaças: “se você morre vai ficar com falta e eu não vou abonar não”, “se você morre reprovo você”. Mas não falei nada. A mãe dele nos chamo para sentar na mesa e comer o lanche da tarde, bem ao estilo do interior: farto e gostoso. Eu sabia que esse momento tinha um certo significado de “última ceia”.

          Pudemos conversar um pouco com Paulo. Até que ele se sentiu cansado e teve que se retirar. Se despediu e foi para seu quarto. Foi a última vez que o vi. Logo houve um profundo e breve silêncio que foi interrompido pelas palavras da mãe: “eu espero um milagre, eu sei que Deus pode fazer um milagre. Ele não vai ignorar o clamor de uma mãe”. Era o coração amoroso de uma mãe com profunda fé falando. Mas o milagre não aconteceu. Por que? Tentar responder esta pergunta seria tentar entender os profundos mistérios do destino e as razões do próprio Deus, e sobre isso nunca falaremos com sabedoria. Só resta o silêncio frente a aquilo que não conseguimos entender nem explicar.

          Há um filme que se chama “Nenhum a menos”. É a história da menina Wei Minzhi, que é designada para ser professora substituta na escola de sua aldeia nas montanhas da China, quando o professor efetivo tem que se ausentar. Ela só tinha treze anos e quase nenhuma preparação para ser professora. Mas, quando um de seus pequenos alunos abandona a escola, porque tem que ir a trabalhar na cidade, a professora Wei inicia uma difícil jornada em busca de seu aluno, que não para até ela conseguir leva-lo de volta.

          Quando em plena pandemia eu fiquei sabendo da morte do Paulo, quis fazer como a professora Wei, ir até a cidade da morte e lutar para trazer de volta meu aluno perdido, e assim o semestre finalizar com todos, sem “nenhum a menos. Mas a vida não é um filme e eu perdi meu aluno definitivamente.

          Neste texto falei que já imaginei o Paulo com assas de condor e de filhote de coruja..., mas agora chegou a hora de o imaginar com assas de anjo, assistindo a minhas aulas de grego sentado no alto da janela ou brincando de carrossel nas pás do ventilador. Com o corpo liberto do câncer e o cansaço.

          É morrendo que se vive!

    __________________

    (1) Jorge Luis Gutiérrez é Professor de filosofia na Pontifica Universidade Católica de Campinas. É mestre e doutor em lógica e Filosofia da Ciência pela UNICAMP. É editor da Revista Pandora Brasil e da Revista Primus Vitam. E autor dos livros de Filosofia: “Aristóteles em Valladolid” (Editora Mackenzie) sobre os conceitos de guerra justa e povos naturalmente escravos, e “Amor e Filosofia, um romance da época dos papiros” (Editora Giostri). Foi coordenador dos livros “Miguel de Unamuno e o existencialismo”, “Filosofia e Literatura” e “Educar para a vida inteira. Lanternas Filosóficas e Pedagógicas”. É autor dos livros de poesia: “Fragmentos de Ternura, Filosofia e Desterro”, “Memorabilia Poetica: oblitus carmina, amore et Desiderio”, “Fragores e Sussurros” e “Imagens Espelhadas Imagens Reflejadas”. Participa regularmente de congresso internacionais e na publicação de artigos e capítulos de livros.

    (2) Pode ser encontrada em: "Lógica, Ciência e Existência Humana "





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