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Revista Pandora Brasil - ISSN 2175-3318
Revista de humanidades e de criatividade filosófica e literária


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A GORDUCHINHA E A JABULÂNI

Renato Modernell
Universidade Mackenzie


Mini currículo dos autores
 


O elemento mais importante no jogo de futebol, a bola, além de nos deliciar com a vertigem do gol, durante muito tempo também nos uniu em torno de uma metonímia. Tanto os locutores esportivos quanto os esportistas em geral costumavam usar a expressão “essa bola” quando na verdade queriam dizer “essa jogada”, ou seja, uma situação específica do jogo.

A dita cuja, também denominada esférica, entre tantos sinônimos de fazer inveja à cachaça, nem precisava de fato estar presente no lance mencionado. Digamos, por exemplo, que um jogador antes de ser lançado estivesse em posição de impedimento. Era cabível um comentário assim: “Nessa bola, fulano se adiantou”. Ou então: “Nessa bola, sicrano se machucou”. Todo mundo entendia.

Era de domínio público que a expressão “essa bola”, com o anteposto pronome demonstrativo, não se referia à gorduchinha, mas a uma circunstância que, no limite, aí sim poderia ensejar o pimba na gorduchinha, no jargão de Osmar Santos. Se fosse o primeiro caso, o objeto, então se usava apenas o artigo feminino, “a bola”. Todos, eruditos ou ignaros, sabiam fazer a distinção. Não era preciso nem diploma do primário, apenas um mínimo de intuição.

Parece que esse mínimo está em falta entre os radialistas atuais. Com raras exceções, eles passaram a usar a expressão “essa bola” para se referir ao objeto físico, como se pudesse haver mais de uma bola em jogo ao mesmo tempo. Uma sutileza se perdeu. Quando uma sutileza se perde, algo está perdido para sempre, como uma agulha.

Alguém dirá que isso é uma irrelevância. Que tanto faz, pronome ou artigo, já que o importante é o substantivo. Em outras palavras: o que vale é a bola na rede. Bem, é uma maneira de ver as coisas. Não a única. Não a que nos interessa.

Se aceitarmos que o futebol é (ou poderia ser) uma arte, tanto quanto o uso do idioma, então o falecimento de uma metonímia deve, sim, ser lamentado, tanto quanto se pode sentir saudades da folha-seca de Didi ou das acrobacias de Garrincha. Quando mais não seja, como sintoma do sucateamento linguístico que campeia no jornalismo brasileiro. Isto é mais evidente no terreno da crônica esportiva, por seu caráter imediatista e, até certo ponto, descompromissado, o que faz com que qualquer um se arrogue o direito de dizer o que bem entende.

Não vamos crucificar os repórteres esportivos, em geral jovens, e que antes de mais nada precisam ser ágeis e instintivos. Poupemos também os locutores, que mal têm tempo de pensar, e menos ainda na copa da África, quando a jabulâni pregava peças em todo mundo, como um saci. Para sobreviver no ofício, eles precisam marcar um estilo por meio de bordões, e não pela retórica barroca, como nos tempos idos em que o Pacaembu tinha sua famosa concha acústica.

Moro a menos de 1,5 km, em linha reta, do estádio. É só abrir a janela e ainda ouço ecoar no éter a voz de Fiori Gigliotti (1928-2006): “E agora, senhores, aquele que está nas alturas nos dá mais uma prova de sua existência enviando-nos as primeiras lágrimas da natureza – chove em Pacaembu!” Esta pérola de circunlóquio pode fazer o leitor sorrir pelo rebuscamento e pela discutível qualidade dos recursos de linguagem. Mas, convenhamos, tem méritos de outra natureza. Não é toda hora que encontramos por aí alguém capaz de soltar de improviso, numa mesma frase, uma perífrase (aquele que está nas alturas, em lugar de Deus) e uma metáfora (lágrimas da natureza, para a chuva). Na era do rádio, isso tinha o requinte do que seria, no campo, um toque de letra ou de calcanhar. A perfeição de Ademir da Guia. E, lá em cima (não no céu, mas na cabine) o grande Gigliotti também era perfeito na metonímia. Jamais diria essa bola para referir-se à redonda, como fazem os locutores de hoje, a três por quatro.

Mas deixemos os locutores e repórteres, que falam no calor do momento, sem tempo para reflexão. O que de fato me espanta, e às vezes me amedronta, é a baixa qualidade expressiva (e cultural) dos comentaristas. Eles sempre constituíram, por assim dizer, a Sorbonne da crônica esportiva. Deles se esperava algo mais polido, mais elaborado, mais “filosófico” até. Hoje são poucos, bem poucos, os que se mostram capazes de nos brindar, vez por outra, com uma frase bem construída, uma tirada original, uma comparação bem feita, uma ironia que não seja grosseira. As opiniões que esses gajos emitem não vão além da circunstância imediata. Não são ideias que merecessem ressoar na concha acústica do Pacaembu, há muito substituída, aliás, pelo lamentável “tobogã”.

Há exceções. Os comentaristas Claudio Carsughi, da Rádio Jovem Pan de São Paulo, e Ruy Carlos Ostermann, da Gaúcha de Porto Alegre, são chamados respectivamente de “mestre” e “professor” por seus colegas de trabalho. Ganharam esses apelidos porque evitam a banalidade. Suas intervenções às vezes têm uma vivacidade verbal que reforça o poder de argumentação. Ostermann, ex-professor de filosofia, mais exuberante, imagético, como um libretista de ópera; Carsughi, com formação de engenheiro, mais direto, austero, lógico, mas com uma lógica temperada de humor britânico, embora ele seja italiano. O resultado disso é que podemos ouvi-los com prazer, pela qualidade do discurso, mesmo se não estamos lá muito interessados no jogo.

Alguém dirá: Carsughi e Ostermann não servem de referência, são veteranos do rádio, os tempos mudaram. Ou então: o mundo do futebol supõe uma linguagem rasa, direta, eficiente sem ser elaborada, em suma, de fácil acesso ao populacho. Não acredito nisso. Eficiência e beleza não precisam ser antagônicas, nem dentro do campo, nem lá no alto, nas cabines de rádio. Volto a ouvir uma velha lição que ressoa na concha acústica do Pacaembu: falar bem não é falar complicado, mas com estilo. Se as palavras não podem conter poesia, que tenham pelo menos sonoridade, surpresa, algo além do feijão com arroz.

Armando Nogueira, falecido em março deste ano, deixou registrado em seu livro Bola na rede o momento fatídico da primeira partida do Brasil contra a Checoslováquia, pelas oitavas-de-final da copa de 1962, no Chile, que acabou zero a zero. O maior jogador do mundo se tornara um peso morto, após a distensão na virilha que o afastaria do futebol por quase meio ano. Nogueira:

Pelé (...) caminha no campo, lentamente, passos miúdos como se estivesse algemado nos tornozelos. A bola espirrada na área vem morrer quase aos seus pés, rente à linha lateral. Com a direita, Pelé dá-lhe toque delicado, medroso, ela rola, se muito, a sua própria circunferência e para a um palmo dele. O checo Masopust, que vinha na corrida, para, também, ao lado de Pelé. Ninguém se move no campo. Vinte e dois jogadores, um juiz e a bola absolutamente estáticos. Masopust, Pelé e a bola. O estádio em silêncio. Só o tempo corre, impressentido. Zito desperta: ‘Dá de calcanhar, Pelé. De calcanhar’. Pelé imóvel, vencido; Masopust imóvel, olhando, respeitosamente, para o corpo de Pelé. Poderia sair com ela ou chutá-la para fora; poderia fingir que a queria, apenas para forçar Pelé a tocá-la para a lateral. Preferiu, dignamente, omitir-se para que Pelé tivesse, ao menos, a ventura de escolher o desfecho para o lance. E Pelé escolheu o mais singelo: com o biquinho da chuteira, pôs a bola fora. Foram os trinta segundos mais sublimes de um jogo de futebol.

Com um texto desses, qualquer pelada vira um espetáculo. Seria irreal, claro, esperar dos jovens comentaristas esportivos o requinte de Ademir da Guia, que eles sequer viram jogar. Mas podiam se espelhar nos jogadores, nesses garotos do Santos, que a crônica esportiva tanto queria ver na seleção. Agora estão lá. E, com eles, a bola desce redondo. Ela mesmo, a esférica, a gorduchinha, a jabulâni, como queiram. Mas nada de essa bola, por favor. Essa é a que desce quadrado.





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