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Revista Pandora Brasil - ISSN 2175-3318
Revista de humanidades e de criatividade filosófica e literária



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AH, SEUS OLHOS NO EQUINÓCIO

(Jorge Luis Gutiérrez)


I

Ah, seus olhos...
mundos fulgentes.
Neles estão todos
os poemas...
da argila aos bytes.

Ah, seu corpo:
todos os espelhos
querem refletir sua imagem,
brigam por retê-la;
Mas são meus olhos
que persistem
e lhe seguem
na sua pele
e em sua arte:
Orvalho do jardim das delícias.
Suave vento no ermo do deserto.
Mel derramado sobre
o favo da vida...

Você:
Abrindo as janelas
para eu navegar...

Ah, eu na onírica espuma.



II

Abraçados, ofegantes.
Da terra ao hiper-uranos
da cabeça aos pés,
nossas línguas balançavam
as estrofes de um beijo.

Você se transluzia
em cosmogonias e nuvens.

E eu viajava
no nau dos deuses.


III

E agora me sento no retábulo
onde descansam os homens
que cursaram os abismos do desejo.
Na estalagem
onde comem os viajantes
que voltam carregados de histórias
e com as marcas do amor na pele.


IV

E nas constelações do sul
há centelhas de felicidade;
e há pó de estrelas
em minhas sobrancelhas.

Meu semblante está cheio
de uma melancolia que não tenho.
Sou como Dante
quando voltou do Paraíso...


V

E tomo o vinho
servido em sua mesa
e aceito o sol de seu quintal.

E percorro seu corpo
com as velas enchidas;
até o último porto,
até a última taberna,
até a última medição estelar.

E as gaivotas anunciam,
no trinar,
que a terra firme está perto:
delícias de frutos,
água fresca.

Velas alçadas
para rumarmos
pelos anseios condizentes,
pelos vulcões acessos...
pela secreta lava...

Tudo lá,
no horizonte amplo
da praia de seus olhos.


VI

Ah, formosa.
Chove, e a chuva me arrasta
pelos rios da memória.
E na saudade você resplandece
na nudez e na musicalidade.

E você fica toda episódica,
desenhada
no quadro da vontade.
Festejada e aclamada
na sua veleidade
e no bel-prazer
de seu despir-se.
Nas suas curvas linhas
de versos selvagens.
E nas andorinhas
do epicentro
que se estende
na arte poética
de seu ventre .


VII

Então eu lhe digo:
bem-vinda ao outono
e canto uma antiga ária...
um aleluia pelo sol
em seu equinócio...

E as coisas
são o brado do coral.

E você dança nua
a música do tempo que transcorre:
uma dança pelo tempo ido,
uma dança pelo tempo presente,
e uma dança pelo tempo futuro.

E eu vou cochichando
por toda sua pele:
bem-vinda ao outono;
enquanto você sorri...

E me pergunto:
será que o outono
também tem cócegas...

Será que as folhas
quando tocam o ar
fazem o outono
expressar-se a gargalhadas.

Será que o outono
no declinar das folhas
ri em seu tempo cíclico.
Ri pelos instantes memoráveis,
só eternos na lembrança.

Mulher:
bem-vinda ao outono
e à suave luz das janelas...
à luz que deixará você
imortalmente esplêndida...


VIII

Ah, sua roupa caindo,
derramando o vinho do deleite...
Ah, eu preguiçoso entre seus braços,
enquanto o outono
transcorre por seus brincos...

Ah, minhas mãos refletindo
o feminino mapa de seu corpo.


IX

E você trafega
de um regozijo
até uma reminiscência.
Da misericórdia da aurora
até a piedade do lusco-fusco.

Onde nossos corações
se enchem de asteróides...
E as moiras tricotam
as alegorias do destino.
E as verdades ondulando
têm cauda de cometa...


X

E me embebedo
mais uma vez
em sua beleza,
evoco as musas,
e desenho você
no equinócio.

E você é singular no equinócio;
como só você sabe sê-lo.


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Poema publicado no livro de Jorge Luis Gutiérrez
"Inundada de luz, poemas de amor e filosofia episódica"
São Paulo, Editora Baraúna, 2010.





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