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Revista Pandora Brasil - ISSN 2175-3318
Revista de humanidades e de criatividade filosófica e literária



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O OUTONO LÁ FORA ESTÁ QUASE TERMINANDO

(Jorge Luis Gutiérrez)


O outono lá fora
está quase terminando,
e dentro de mim há um outono
que nunca termina.
Não é o outono claro
que vejo através dos cristais,
com suas cores cinzas e harmonias.
Senão o outono da reminiscência,
saturado de frio e de neblina.

Por que sempre
é outono na lembrança?
E por que nas
Alamedas do passado
raramente os outonos se terminam?

E este outono se vai pelas veredas,
com seus quadros melancólicos e líricos.

E o outono que aninha na memória
é impetuoso em infância e cadernos,
em sorriso maternal e sopaipillas.

Ah! diáfano outono
no arvoredo da escola...
Úmido outono
na praça da esquina.

E nesses dias de outono interminável,
a casa cheirava à manteiga derretida,
espalhada sobre o pão recém-saído,
e o leite quentinho com baunilha.

Mas o estranho
é que agora me dou conta
que esse outono
está cheio de luz e de energia.
O que me obriga a corrigir
o que eu disse,
faz um momento,
ao mencionar o frio e a neblina:

Porque ainda que o lembre friorento,
esquenta-me o amor da família.
E ainda que o pense nebuloso,
o olhar de meus irmãos me alumia.

Ah! outono que não és este outono,
que afora de meus vidros se calcina.
Senão o outono das ruas da infância,
com amorosas e risonhas companhias.

Por que será que no trem da memória
quase não viajam folhas amarelas?

Deve ser porque então se estendiam
os sabores do lar e da comida...
E porque então eu pensava pelas tardes
no açucarado amor de uma menina.

E o tempo transcorria com ternura
porque tinha uma mãe e uma tia,
e um pai, que apesar de algo distante,
era o sol que iluminava nossas vidas.
E o barulhento conversar de todos juntos,
parecia uma grande algaravia...

E agora, afora, ao outro lado dos vidros,
há um outono que declina suavemente.

E no longínquo jardim da memória,
um braseiro com lenha de eucaliptos,
arrulha este outono relutante e reticente.


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Poema publicado no livro de Jorge Luis Gutiérrez
"Inundada de luz, poemas de amor e filosofia episódica"
São Paulo, Editora Baraúna, 2010.





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