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Revista Pandora Brasil - ISSN 2175-3318
Revista de humanidades e de criatividade filosófica e literária



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TE LEMBRAS QUE ERAS INFINITA

(Jorge Luis Gutiérrez)


Te lembras que eras infinita.

Lembras que eras bela,
a mais bela entre todas as mulheres,
radiante e risonha.
E querias ser modelo somente
para que eu pudesse fotografar-te.

E eras doce e terna
e ficavas mais doce e mais terna
quando querias que eu
te escrevesse um verso.
E lembro que eu me emocionava
cada vez que dizias
que gostavas viver em meus poemas.

Lembro que eras infinita…
E enchias com tua presença
todo um manuscrito de poemas,
de sabores e temperos,
de sentidos que só eram sentidos
se tinham teu sentido.

Te lembras dessa manhã
em que eu te declarei
a mulher mais bonita
de todos os mundos:
tidos e por ter.

E te disse:
“Tu és a mais formosa
de todas as festividades…
De todos os agoras...
e de todos os sempres
De todos os céus…
De todas as literaturas…
De todas as epopéias…
E de todas as líricas…
De todos os firmamentos…
De todos os trajetos…
De todos os brindes.
De todos os vinhos”.

E tu me declaraste o melhor
poeta de todas as épocas…

E me ofereceste um banquete,
que nem mesmo Homero,

em toda sua glória, nunca teve.

Ah! que tempos aqueles!
Quando eu te tomava da mão
e te levava a caminhar
pelos templos Hititas
ou pelos palácios Assírios,
arcaicos e longínquos.

Então tudo era possível…

Lembro teu corpo dançando
refletindo-se no espelho…
alegorizando o amor...
“Os espelhos são como
livros nos quais
estão escritas
nossas outras vidas
que decorrem
paralelas a esta…
São reflexos das vidas
que poderiam ter sido…
nos espelhos se reflete
nossa imagem poética…”
(Eu filosofava…
tratando de impressionar-te).

É que tu tudo fazias possível.

Se até imaginávamos
que muito antes de Tales
nós já tínhamos fundado
a primeira escola filosófica.

E escrevíamos uma nova Odisséia,
na que nós,
muito antes que Ulisses,
já navegávamos pelos
mares de Ítaca.
Se até uma vez tu foste
a lendária Cirene.

Lembras que um dia
nos sentamos à mesa
de Anacreonte.
Mesa cheia de vinho,
pão e poemas…
de uva madura e figos saborosos.

Ah!, como eras bela.
Eras a própria poesia.

E eu, teu inspirado poeta chileno,
séculos antes que o Eclesiastes
já te falava do pão,
do vinho e da eternidade.

Te lembras quando aboli
todas as metáforas,
e fui chamando cada parte de teu corpo
com nomes anatômicos.

Lembras desse dia em que
avistamos juntos o monte Olímpio
e Atenas, Afrodite e Artêmis
ficaram com ciúmes
ao ver quão formosa eras.

Lembras que viajávamos
pelas cidades babilônicas…

Lembras que visitamos Cartago
em todo seu esplendor e magnificência.

Lembras que atravessamos profundos
desertos em caravanas de camelos.

Lembras que Akhnatón e Nephertite
nos convidaram a seu palácio
e ele nos leu
seu sublime Hino ao Sol.

Lembras que depois fomos
viajar pelo mediterrâneo
num barco fenício.

Lembras quando conversamos
toda uma tarde com Aristóteles.

E como eu poderia esquecer
quando atravessei
os infernos para encontrar-te,
como Dante.
E tu me recebeste
e me levaste da mão
ao próprio paraíso.

Lembras que querias viajar
comigo numa balsa pelos mares.
E chegar a costas misteriosas.

Lembras quando
te mostrei como se escrevia
a palavra amor em Sumério.

Lembras que choraste
um dia que eu te disse
que o dia que se ia não voltaria mais.
E que só ficaria em minha memória
tua formosura dessa hora.

Lembras que eu protestava
porque Deus tinha criado
primeiro o mundo e depois os homens:
“Que custava ter criado
primeiro os humanos,
depois criar as filmadoras,
depois as câmeras fotográficas,
depois os vídeos e a televisão.
E depois permitir que filmássemos a criação.
Ah!, dizia eu então,
como me teria agradado
poder filmar quando Deus criava Eva...
(E tu me deste um beliscão)

Te lembras que um dia
me disseste que eu era
teu escritor preferido...

Lembras desse dia
em que te relatei
quase todo o Quixote...

Lembras que eu queria
ler-te inteiro o livro
com os poemas de Góngora.

Lembras quando me disseste
que tu eras uma antiga sacerdotisa
do templo de Astarte
e dançaste nua, um rito pagão...

Lembras quando traduzíamos
arcaicos poemas em antigas línguas.

Lembras de Ovídio e de Catulo...
Te lembras de Abelardo e de Eloísa...

Te lembras...
Te lembras...
Te lembras...


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Poema publicado no livro de Jorge Luis Gutiérrez
"Inundada de luz, poemas de amor e filosofia episódica"
São Paulo, Editora Baraúna, 2010.





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