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EU, TITUBA, FEITICEIRA... NEGRA DE SALÉM, DE MARYSE CONDÉ: ASPECTOS DO DUPLO E OUTROS MITOS


Lilian Cristina Corrêa

Doutora em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde ministra cursos de Graduação e Pós-graduação (Lato Sensu) na área de Letras, mais especificamente trabalhando com Literaturas em Língua Inglesa. Integra o grupo de estudo sobre o Duplo, liderado pela professora doutora Lílian Lopondo.



A figura da mulher-feiticeira está ligada à história da humanidade há muito tempo: de conhecedora de segredos da natureza a entidade demoníaca, essa figura feminina sempre sofreu consequências por representar o “diferente”, ameaçando as esferas do ser, do poder e do saber e, acima de tudo, intimidando ou questionando doutrinas religiosas. É possível, contudo, sugerir outro ponto de vista, complementar a tais posicionamentos, mais especificamente no que diz respeito ao estudo de determinados momentos históricos que tiveram consequências críticas para o desenvolvimento da humanidade, a saber, aqueles que tratam da existência da figura da bruxa ou feiticeira, de toda a problemática que envolve tal figura e os problemas sociais e políticos vinculados a elas, as 'criaturas do além', em diversas esferas do conhecimento, como pode-se observar no artigo Bruxas, da fogueira ao confinamento, publicado na revista História Viva (2006):

A abordagem histórica das bruxas deve começar com a pergunta inescapável: elas existiram? A resposta é afirmativa, mas comporta uma ressalva. Sim, elas existiram, mas como construção social de uma época, como objeto catártico de uma sociedade dominada pela Igreja que demonizava o que soasse herético. [...] A repulsa e o temor à bruxaria tinham também um componente que hoje seria chamado de sexista. Havia bruxos, mas a perseguição visou mais às mulheres. Eram, sobretudo elas que morriam queimadas nas fogueiras da Inquisição medieval. Os tempos, no entanto mudaram, e o declínio do poder da Igreja, a partir do Iluminismo, correspondeu a penas mais brandas, como o isolamento das acusadas em hospícios. (p.32)

Nesse contexto, pretende-se, com o presente artigo, apresentar a figura da mulher-feiticeira e os questionamentos que a cercam através da personagem Tituba, protagonista do romance Eu,Tituba, Feiticeira... Negra de Salém (1986), de Maryse Condé, e suas relações não somente com a imagem da feiticeira, mas também com suas possíveis releituras intertextuais com figuras mitológicas.

Vale lembrar que o romance de Condé constitui uma forma de reescrita e releitura da peça de Arthur Miller, As Bruxas de Salém (1953), como uma tentativa de ‘ocupar lacunas’ deixadas pelo hipotexto e, ao mesmo tempo, sugerir novas alternativas, de modo a proporcionar uma nova possibilidade de compreensão, através de um novo ponto de vista, agora o da escrava, e também uma nova perspectiva, uma vez que a narrativa parte de uma estrutura pós-colonial.

É evidente a retomada da temática abordada por Miller no romance da antilhana Maryse Condé, que propõe a releitura da trama de As bruxas de Salém de forma mágica e, ao mesmo tempo instigante, não somente por retratar, sob outro ponto de vista, o período colonial americano e o episódio da caça às bruxas, mas por deixar como viés a possibilidade de outras interpretações, como a face dupla da imagem feminina representada por meio da personagem Tituba. A narrativa, escrita sob a forma de romance, traz a personagem Tituba, já relida da história por Miller, e seu envolvimento no episódio de Salém. Entretanto, Condé vai muito além disso, pois apresenta uma narrativa que subverte não somente a questão histórica, no que diz respeito à cronologia do texto de Miller, descortinando todos os eventos sob o ponto de vista da escrava, desde antes de sua chegada a Salém, até períodos posteriores ao episódio. Ao fazê-lo, Condé torna possível explorar toda uma gama de questões filosóficas, culturais e sociais, dentre elas: a questão de gênero, o papel materno, o feminismo, as similaridades entre as experiências de negros e judeus, a questão do amor, sexo, racismo, escravidão entre outros.

É importante ressaltar que se trata de uma obra de ficção e, em termos estritamente históricos, pouco se conhece sobre a vida da escrava Tituba, bem como há pouquíssimas informações documentais acerca de sua participação no episódio histórico de Salém – nada além do fato de ser oriunda de Barbados e confessar ser ‘uma bruxa’. Condé apresenta sua obra da seguinte forma:

Abena, minha mãe, foi violentada por um marinheiro inglês na ponte do Christ the King, num dia de 16**, quando o navio velejava rumo a Barbados. Foi dessa agressão que nasci. Desse ato de ódio e desprezo. (...) Minha mãe chorou por eu não ser menino Achava que a sorte das mulheres era ainda mais dolorosa que a dos homens. Para se libertarem de sua condição, não tinham elas que passar pelas vontades daqueles mesmos, que as mantinham na servidão e dormir em suas camas? Yao, ao contrário, ficou contente. (...) Foi ele quem me deu meu nome: Tituba. Ti-Tu-Ba. Não é um nome ashanti. Sem dúvida, ao inventá-lo, Yao quis provar que eu era filha de sua vontade e de sua imaginação. Filha de seu amor. (CONDÉ, 1986, pp. 11-15)

Ao apresentar sua narrativa, Condé promove um encontro entre a Tituba de Miller e sua ‘nova’ Tituba, que relata a história de sua vida desde antes mesmo de seu nascimento até sua chegada à América, passando pelo episódio de Salém, sua condenação por ter confessado conjurar com o demônio e ter escrito em seu livro e, posteriormente, cria uma nova realidade, obviamente ficcional, para a personagem após a sua prisão. Deve-se observar que em cada um desses momentos, é possível perceber, através da narrativa, as diferenças entre a Tituba de Miller, escrava sem voz, calada pela sociedade, que se aproveita do momento da confissão para dar voz às suas vontades e a Tituba de Condé, ainda escrava, mas com personalidade marcante, questionadora.

No romance de Condé, a protagonista se exila na América, por opção, para evitar a separação do homem a quem amava, John Índio, que era escravo e foi vendido ao Reverendo Samuel Parris antes que embarcasse para o Novo Mundo. Ela abdica da própria liberdade, pois não possuía donos, para estar ao lado de John Índio. Sabia, internamente, dos perigos que a cercavam, mas mesmo assim, manteve firme a ideia de seguir os comandos de seu coração:

Eu sabia que perigos terríveis me ameaçavam, mas era incapaz de nomeá-los (...). Aquela noite soprou um ciclone.
(...)
John Índio balbuciou:
- Um novo proprietário, senhora!
- É. Um homem de Deus que cuidará da alma de vocês. É um ministro chamado Samuel Parris. Tentou fazer comércio aqui, mas seus negócios não andaram bem. Então vai para Boston.
-Para Boston, senhora?
- É, fica nas colônias da América. Preparem-se para acompanhá-lo.
John Índio estava perplexo. Pertencia a Susanna Endicott desde a infância. (...) estava convencido de que mais dia menos dia iria falar em sua libertação. Mas eis que, em vez disso, sem mais nem menos, lhe anunciava que o vendia. E a quem, Senhor? A um desconhecido que ia atravessar o mar para tentar a fortuna na América...
Na América? Quem é que já tinha ido à América?
Quanto a mim, entendi o terrível projeto calculado por Susanna Endicott. Eu, somente eu era visada. Era eu que ela estava exilando nas Américas! (...) (CONDÉ,1997, pp. 50-51)

A partir do momento em que chega ao continente americano, Tituba percebe que sua vida ali nunca seria fácil. A descrição inicial se concentra na chegada à colônia americana dos Parris, seu contato com a esposa do Reverendo, sua filha e sobrinha e do carinho que nutria pela pequena Betty, filha de Parris. Revela que a família é transferida para a aldeia de Salém, mostrando que nem tudo parecia bem: “Desde o instante em que entrei em Salém senti que nunca seria feliz ali. Senti que minha vida aí conheceria provas terríveis, e que acontecimentos singularmente dolorosos embranqueceriam todos os cabelos da minha cabeça!” (CONDÉ, 1997, p. 81).

Quando as meninas da aldeia, entre elas Betty e Abigail, passam a demonstrar sinais de ‘histeria’, Tituba é acusada de feitiçaria, pois rondavam a aldeia boatos de que ela conhecia os segredos das ervas e de que conversava com os espíritos dos mortos. Ela, no entanto, meramente fazia uso da sabedoria que lhe fora passada por seus ancestrais para curar doenças e confortar os que precisavam de auxílio. Tituba sente-se uma estranha para si mesma naquele ambiente e as acusações só vêm a corroborar com tal situação: “Havia, no entanto, uma coisa que eu ignorava: a maldade é um dom que se recebe ao nascer. Não se adquire.” (CONDÉ, 1997, p. 99).

Qualquer tentativa de defesa que a favorecesse seria vã, pois já a haviam condenado: “Você, fazer o bem? Você é negra, Tituba! Só pode fazer o mal. Você é o mal!” (CONDÉ, 1997, p. 104). Até que ela se decide por embarcar no mesmo rio de lama que haviam lhe colocado, como uma tentativa de reverter a sua situação:

Quem eles queriam que eu denunciasse? Atenção! Eu não ia me contentar com denunciar as infelizes que caminhavam comigo na lama. Eu ia bater forte. Ia bater na cabeça. E eis que na extrema miséria em que me encontrava, o sentimento do meu poder me embriagava! Ah, sim, o meu John Índio tinha razão. Aquela vingança, com a qual eu tinha frequentemente sonhado, me pertencia, e pela vontade deles próprios! (CONDÉ, 1997, p. 125).

Em seu íntimo, Tituba sente-se fortalecida pelas palavras de John Índio e pela visão que teve da mulher que a criara, Man-Yaya:

Não se aflija, Tituba! Você sabe, o azar é irmão gêmeo do negro! Nasce com ele, deita-se com ele, disputa com ele o seio murcho. Come o peixe da sua cuia. No entanto, ele resiste. O negro! E aqueles que querem vê-lo desaparecer da superfície da terra pagarão caro. De todos, você será a única a sobreviver! (CONDÉ, 1997, p. 115).

Depois de acusada, Tituba confessa, é condenada e, assim como a personagem da peça de Miller e a personagem histórica, vai presa. Entretanto, seu destino é diferente de suas outras Titubas. A personagem de Condé volta a Barbados e se vê envolvida em conflitos em prol da liberdade, acabando por descobrir-se como figura histórica idolatrada pelo seu povo, um ícone, e passa por outros tantos dissabores antes de sua morte.

Ao retomar os fatos históricos e a narrativa de Arthur Miller, Condé estabelece uma interação entre as personagens apresentadas, recheando seus diálogos com uma série de críticas severas ao comportamento social da época no tocante à condição feminina e, ainda mais importante e abrangente, questiona os ‘silêncios’ e a ‘submissão’, o ‘poder’ e o ‘fazer’ inexoravelmente presentes na condição da mulher sob diferentes pontos de vista, além de também colocar em questão o que realmente representaria ser uma ‘feiticeira’ em uma sociedade que de tão conservadora, revelava-se, em verdade, puramente hipócrita.

Assim, pode-se observar que a releitura da peça de Miller apresentada no romance de Condé apresenta a possibilidade de discussão entre as dicotomias estória / história, verdade / exclusão, colonizador / colonizado, civilização / selvageria, racismo / sexismo, dominação / submissão, centro / periferia, exílio / alienação, tempo / espaço, realidade / ficção ou, como Linda Hutcheon (1991) assim denota, uma ‘metaficção historiográfica’. Ao expor as formas pelas quais tal ficção é produzida, Hutcheon chama a atenção do leitor para o status do romance como uma espécie de artefato e não como uma reprodução relativamente fiel da realidade.

Desta forma, essa consciência pessoal da narrativa revela o fato de que a literatura não reflete nenhuma realidade de maneira inocente, pelo contrário, cria ou denota uma realidade, e, ao fazê-lo, a torna significativa. A noção de consciência pessoal da narrativa que denota diversas realidades significativas, em si, já remonta a um conceito de duplicidade, abrindo o caminho para mais uma perspectiva de análise através da personagem Tituba, que no romance de Condé assumiu um posto diferente, o de dona de sua própria voz e, por isso, responsável pelo seu destino. A referência à ideia de duplicidade surge a partir das inúmeras imagens que podem ser destacadas da personagem: Tituba como mulher, negra, escrava, sem voz social, mas dotada de voz na narrativa pós-colonial de Condé, conhecedora de ervas e sortilégios e, porque não dizer, feiticeira.

A postura de desmistificação da figura da feiticeira representada por Tituba é evidente no texto de Condé. De início, a personagem não apresentava nenhuma consciência de si mesma, nem conseguia compreender como e porquê as pessoas se distanciavam dela – fora renegada pela mãe, adotada por Yao, escravo que se casou com sua mãe e as aproximou, logo perdeu a mãe que efetivamente nunca fora sua por completo e, em seguida, perde seu protetor, Yao. Passa a ser criada por Man-Yaya, senhora conhecedora dos mistérios da natureza viva e espiritual, que lhe ensina tudo o que sabe e transforma-se em sua mentora, depois de sua morte – Man-Yaya continuou como presença viva na realidade de Tituba, como se fosse uma espécie de guia de suas ações e conforto nos momentos de desespero.

Observando-se a conexão entre essas duas personagens é possível retomar o que disse Otto Rank, em O Duplo (1936), no sentido de que “como geralmente acontece com os temas populares da literatura, suas raízes [estão] no passado remoto, aparecendo no folclore, nas superstições e em antigos costumes religiosos”(p.7).

O leitor do romance de Condé tem como claro o fato de que todas as menções à ideia de Tituba vista como feiticeira estão relacionadas ao seu conhecimento sobre ervas e conversas com os mortos que, segundo ela, habitavam o mundo dos vivos – entretanto, esse tipo de sabedoria de nada servia na comunidade puritana que a escrava habitava, ao contrário, constituía prova de que ela conjurava com o demônio – era como se Tituba representasse duas figuras em apenas uma: a escrava, subserviente e a feiticeira, poderosa e maligna – eis o enigma da identidade citado por Pierre Brunel (2000), quando diz que “O encontro com o duplo mágico é sempre fonte de angústia para quem é assim confrontado com o enigma da identidade (...)”. (p. 266).

Retomando Rank, as catástrofes, em geral, tanto na história quanto na literatura, parecem ser provocadas por mulheres, sedentas de vingança ou reconhecimento ou em busca de aventuras amorosas: a Tituba de Condé não escapa a essa afirmação, pois é considerada feiticeira e, na tentativa de ser absolvida, promove acusações a outras pessoas que, supostamente, teriam relações com o demônio e somente chega a esta realidade por escolha própria, pois optou pela vida de escravidão para poder ficar ao lado de John Índio, o homem a quem amava, mas que em nenhum momento lutou por sua liberdade ou integridade perante os puritanos ávidos por punir quem quer que ameaçasse suas raízes e crenças. Nessa perspectiva, Rank acrescenta:

O duplo, que era o anjo da guarda do homem, e protetor de sua imortalidade, transformou-se na consciência perseguidora e atormentadora do homem, personificada pelo Demônio, tornando-se o derivativo religioso do temor da morte, neutralizado antes pelo Duplo. A princípio o Duplo é a própria personalidade (sombra, reflexo), assegurando sobrevivência futura; mais tarde representa uma Personalidade anterior, conservando, juntamente com o passado, a juventude do indivíduo; finalmente, o Duplo se torna uma Personalidade oposta, que aparecendo sob a forma do mal, representa a parte mortal, destacada da personalidade existente e que a repudia. (1936, p. 110)

Com relação à magia, na obra Magic in the Roman World (2001), Naomi Janowitz relaciona o trabalho primitivo às primeiras noções desse conceito, indicando que desde cedo indicar alguém como mágico ou feiticeiro poderia incitar sérias consequências, como em “(...) to call someone a 'magician' (...) was to mount a potentially damaging attack. (...) The terms we translate as 'magic' and 'magicians' were associated with human sacrifices, perverse sexual practices and all sorts of antisocial (...) activities.” (p. 1) E acrescenta: “Charges of magic reveal social tensions, internecine battles, competition for power, and fear that other people have special powers. Charges of witchcraft represented socially acceptable modes of attack against political enemies when other modes of asserting rivalry were not an option” (pp. 1-2).

A personagem Tituba encerra ambas possibilidades: por representar perigo, uma vez que conhecia as 'artes ocultas' e por ser julgada feiticeira, mesmo que socialmente injustiçada. É possível notar, por meio dessa personagem, que a questão da magia sempre esteve, de alguma maneira, voltada à sua forma de enxergar a religião, assim como afirma Janowitz, quando diz que tanto magia quanto religião sempre estiveram intimamente relacionadas, considerando Moisés e até mesmo Jesus como magos, comprovando tal possibilidade pela origem do termo “mágica”, que engloba ironia e imaginação: do grego, mageia e do latim, magia, ambas palavras derivando do termo persa, magos, que significa sacerdote.

Se é possível considerar um fato que magia e religião estão intimamente relacionadas, torna-se clara a compreensão da personagem Tituba como uma espécie de sacerdotisa e seus conhecimentos seriam os mesmos que os de uma sacerdotisa que poderia ter vivido em qualquer época da história da humanidade. A grande questão é que, historicamente, sua realidade pessoal impedia que tudo fosse tão simples assim: como mulher, negra e escrava, Tituba não teria direito a nenhum lugar de destaque, sequer um lugar comum na sociedade. Citando, novamente, Janowitz: “No matter where we look in the history of accusations of magic and witchcraft, women are over-represented.”(2001, p. 86) e “'Witch' was “(...) chamar alguém de 'mago' (...) era propor um ataque potencialmente perigoso. (...) Os termos que traduzimos como 'mágica' e 'mago' eram associados a sacrifícios humanos, práticas sexuais perversas e todos os tipos de atividades anti-sociais” (tradução nossa).

Se é possível perceber a figura da feiticeira como um duplo, como uma releitura intertextual das questões mitológicas, com quais dessas figuras da mitologia a personagem Tituba (e suas companhias) manteria relações? Inicialmente, Tituba viria de um povo similar aos hiperbóreos, considerando-se a busca pela liberdade e auto-suficiência descritas no final do romance de Condé, por meio das batalhas das quais Tituba também tomou parte. Segundo Bulfinch, a parte setentrional da terra era supostamente habitada por uma raça feliz, chamada hiperbóreos, que desfrutava uma primavera eterna e uma felicidade perene, por trás das gigantescas montanhas, cujas cavernas lançavam as cortantes lufadas do vento norte, que faziam tremer de frio os habitantes da Hélade (Grécia): “Aquele país era inacessível por terra ou por mar. Sua gente vivia livre da velhice, do trabalho e da guerra” (1999, p. 8).

Fato é que o leitor acaba por compreender que o que Tituba considerava como sua terra natal, seu sonho, não era efetivamente a Barbados para a qual ela retornou, mas a Barbados de seus antepassados, imortalizada por eles, e para onde ela é transportada após a sua morte. Outras figuras com as quais parece possível manter relações seriam: Minerva, a deusa da sabedoria, que seria representada por Man-Yaya, a mentora de Tituba; Ceres, a deusa da agricultura, que inspiraria tanto a figura de Man-Yaya quanto a de Tituba, ambas profundas conhecedoras do que a terra poderia oferecer-lhes para a cura de todos os males. Man-Yaya também pode ser identificada com os Lares, os deuses da família, espíritos deificados pelos mortais, as almas de seus antepassados (BULFINCH, 1999, p. 17).

Tomando-se o ponto de vista puritano, da comunidade de Salém, Tituba poderia ser vista como Pandora, aquela que espalhou todos os males pela humanidade ao abrir a caixa proibida dada como presente a Epimeteu por Júpiter, como vingança pela traição de Prometeu. Pandora é a figura da mulher curiosa, mas também dotada de perigo, exatamente como Tituba que, por curiosidade e paixão, abandonou sua vida solitária para viver junto de John Índio e, por conta de sua realidade e de seus conhecimentos espirituais, de acordo com a comunidade em que vivia, teria espalhado ali os males provenientes de seu suposto relacionamento com as forças ocultas.

Representando a figura da feiticeira, Tituba poderia ser comparada a Circe, feiticeira conhecedora do poder das ervas e também a Medéia, poderosa feiticeira, que mantinha relações com Hécate, a deusa dos mortos e Télus, a deusa da Terra – Tituba, na verdade, seria uma somatória de todas essas figuras, reunindo seus poderes reais e seus conhecimentos do oculto. Entretanto, mesmo portadora de todas essas semelhanças com as divindades mitológicas, o destino de Tituba não permitiu que ela usufruísse de sua sabedoria como forma de escapar de seus problemas – pelo contrário: a personagem acreditava que era necessário passar por todos os martírios para que pudesse ser 'purificada', caso viesse a retornar a Barbados. Talvez a figura mitológica que mereça maior destaque e com a qual Tituba mantém muitas semelhanças seja realmente Medéia e, como ela, sofreu por ser conhecedora de forças sobrenaturais, sofreu pela paixão e pela dor da perda, como menciona Janowitz:

Medea, while not directly called a witch in the early texts, is involved in all sorts of antisocial and destructive actions which make it clear that women with supernatural powers are active threats to everyone in their sphere. She effected her goals by illicit and suspect means, but she is presented in such a way as to make her path seem to be the natural one of women. She is a full-blown fantasy of femininity gone wrong. Hostile, vindictive, dangerous, she kills her brother, poisons members of the royal family, and murders her own children (2001, p. 89).

É possível concluir, então, que em diversos momentos históricos as mulheres têm suas vidas e condutas descritas como em uma maldição, sendo mostradas como essencialmente falsas. Tais imagens hostis relacionadas à figura feminina acabam sendo uma forma de representação exagerada, dominada pelo mistério que o sexo feminino ainda exerce na humanidade e que, possivelmente, sempre há de exercer.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. (A idade da fábula) Histórias de deuses e heróis.Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

BOEHMER, Elleke. Colonial and Postcolonial Literature. New York: Oxford University Press, 1995.

CONDÉ, Maryse. Eu, Tituba, Feiticeira... Negra de Salém. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

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Revista História Viva, edição de setembro de 2006.

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